segunda-feira, 27 de abril de 2015

A nossa vidinha



Sim, vamos falar da nossa vidinha, será esse o tema do nosso bloguinho.
Vidinha, não acham um tema muito corriqueiro? Perguntam alguns.

Por isso mesmo, esta é uma das palavras top da Cristina,  os textos mais fantásticos surgem das maiores corriqueirices.

Os intelectuais virão nos visitar à espera dum super texto e a gente curiosa  nos cuscará em busca de codrelhices,  mas irão se deparar com sabedoria.

Nada como melhor exemplo da vidinha, do que falar da colher de pau e quem se lembra daquele romance em que o narrador é uma garrafa de vinho?
Eu prefiro aquele das conversas dela com o seu espelho...

Seja lá como for, o importante é pormos em prática os ensinamentos que adquirimos ao longo da vida e soltarmos a criatividade.

À la prochaine
Palucha

quinta-feira, 23 de abril de 2015

LIVROS EM MIM



Chegaram com o desejo da criança que vos sonhava.
Ganharam espaço, tomaram lugar e atingiram estatuto.
Estão em mim, para mim e através de mim.
Cresci, transformei-me tantas vezes e chorei tantas outras… convosco.


Livros da minha vida? - É questão difícil.
São todos, todos os que me passaram pela mão e que me ajudaram a abrir o coração.
Quantos foram? – O que interessa.
Quais ficaram?  Nenhum. E todos em Um.

Livros… Assim são para mim. Uma espécie de tudo e de tanto.
Livros … de escola, de história do mundo, do oriente e das américas, de saúde, de culinária, de pessoas únicas, de artes e de amores, de esperança e de confiança… tudo. Tudo o que vale a pena eu ler.
E se assim foi comigo o que posso eu dizer?
Grata sou, feliz me fiz, mulher me criei e ser humano me tornei.

Por isso gostava de vos honrar na minha vida.
E faço-o assim. É tentativa vã?
Se o for, fica o meu gosto, o meu sentir, o devir, a alegria e a paixão.
A paixão que me aquece e me apetece. Hoje, convosco, um livro Sou.

Fernanda Ferreira


terça-feira, 21 de abril de 2015

A fotografia que nunca tirei


A fotografia que nunca tirei foi daquele precisamente impreciso dia que não existiu, naquela precisa situação que nunca aconteceu ou será que aconteceu e eu não dei por isso?

Daquele passeio que nunca fui, a cara linda que não vi, a paisagem que não visitei, daquelas lembranças que não me recordo, daquele prato que não cozinhei, daquele país que nunca visitarei, da planta que ainda não nasceu.


Algum momento real que tenha acontecido e não retratei com a máquina, foi retratado dentro da minha alma.

Boas Leituras
Palucha

SALVO-ME POR TI


Fizeram-no acreditar que o mundo tinha 40 m2, somados com o cheiro a madeira polida do chão, paredes quasiformes com cal embutado posto por alguém antes dele nascer.

Um silêncio antigo que não permitia saber dos inícios, abafava a curiosidade incomodativa. 

Ele nem se lembrava que existiam perguntas.

A vida acontecia nos movimentos automáticos da sobrevivência de cuidar deste património enorme para quem nunca conheceu outro. 

A casa, um jardim farto, uma horta guarnecida e um curral com animais vivos que se renovavam para alimentar. 


Tudo isto mantinha tudo no sítio e preservava o capítulo.
Era seguro.


Já se vislumbravam rugas que contavam poucas histórias. As histórias não eram poucas mas anulavam-se pelas similaridades.


A vivência ermita tinha uma causa.
A crença desse fado e uma subserviência aliada à espera de um depois que tinha o condão do divino.

Foi-lhe dito que vida assim o era. E a ele restou-lhe crer, porque a inquietação raramente assaltava naquele temperamento obediente e parco.

Houvera alguém (que dificilmente poderemos saber quem ) que dissera que era imoral sair daqueles quentes m2...sagrados de pureza como amuleto protetor contra a uma humanidade gasta e incolor.
O sentimento de dívida pelo salvamento imposto…petrificava. Uma culpa embrulhada em remorsos.

Naquele dia, começou o mesmo baile da rotina, a empurrar a porta do quarto que já não rangia. Passava por cima da profusão de objetos espalhados que alguém lhe dera num tempo já esquecido. Mochilas velhas, três ou quatro bengalas, cachecóis intermináveis, almofadas, binóculos, revistas, canetas, portas chaves e quarenta e quatro livros que ele nunca leu guardados em duas caixas de cartão.

O sol entrava pela janela num feixe que se estendia desde do tapete até ao sofá. Ele aproximava-se e olhava para o mundo com a cegueira dos seus olhos.


Ouviu um som abafado para lá do mural de carvalhos que de forma desafiadora impactou.


Desarrumado, sentiu o que não podemos descrever, porque fazia parte de uma paleta emocional desconhecida.


Descalço e imprudente, saiu por mais uma porta e pisou a terra que limitava o seu solo beatificado. Não se importou.


Passou o curral, circundou a horta e seguiu a melodia “azogo” que comandava uma vontade que nunca tinha conhecido como sua.


Um coração descompassado, que ia atinando ponteiros com compassos que vinham de fora... da humanidade gasta mas viva.


Agarrado aos carvalhos, passou os limites de si próprio e viu uma jovem que esfolheava um livro, abraçada pelo sol e que deixava sair aquela melodia de uma geringonça quadrada, encaixada ao seu lado.


Caminhou, foragido de si próprio e com a boca seca de saliva e a cabeça cheia de nervos, disse o que nunca pensou: “Salvo-me por ti”


Depois, mais ninguém me disse nada.