terça-feira, 21 de abril de 2015

SALVO-ME POR TI


Fizeram-no acreditar que o mundo tinha 40 m2, somados com o cheiro a madeira polida do chão, paredes quasiformes com cal embutado posto por alguém antes dele nascer.

Um silêncio antigo que não permitia saber dos inícios, abafava a curiosidade incomodativa. 

Ele nem se lembrava que existiam perguntas.

A vida acontecia nos movimentos automáticos da sobrevivência de cuidar deste património enorme para quem nunca conheceu outro. 

A casa, um jardim farto, uma horta guarnecida e um curral com animais vivos que se renovavam para alimentar. 


Tudo isto mantinha tudo no sítio e preservava o capítulo.
Era seguro.


Já se vislumbravam rugas que contavam poucas histórias. As histórias não eram poucas mas anulavam-se pelas similaridades.


A vivência ermita tinha uma causa.
A crença desse fado e uma subserviência aliada à espera de um depois que tinha o condão do divino.

Foi-lhe dito que vida assim o era. E a ele restou-lhe crer, porque a inquietação raramente assaltava naquele temperamento obediente e parco.

Houvera alguém (que dificilmente poderemos saber quem ) que dissera que era imoral sair daqueles quentes m2...sagrados de pureza como amuleto protetor contra a uma humanidade gasta e incolor.
O sentimento de dívida pelo salvamento imposto…petrificava. Uma culpa embrulhada em remorsos.

Naquele dia, começou o mesmo baile da rotina, a empurrar a porta do quarto que já não rangia. Passava por cima da profusão de objetos espalhados que alguém lhe dera num tempo já esquecido. Mochilas velhas, três ou quatro bengalas, cachecóis intermináveis, almofadas, binóculos, revistas, canetas, portas chaves e quarenta e quatro livros que ele nunca leu guardados em duas caixas de cartão.

O sol entrava pela janela num feixe que se estendia desde do tapete até ao sofá. Ele aproximava-se e olhava para o mundo com a cegueira dos seus olhos.


Ouviu um som abafado para lá do mural de carvalhos que de forma desafiadora impactou.


Desarrumado, sentiu o que não podemos descrever, porque fazia parte de uma paleta emocional desconhecida.


Descalço e imprudente, saiu por mais uma porta e pisou a terra que limitava o seu solo beatificado. Não se importou.


Passou o curral, circundou a horta e seguiu a melodia “azogo” que comandava uma vontade que nunca tinha conhecido como sua.


Um coração descompassado, que ia atinando ponteiros com compassos que vinham de fora... da humanidade gasta mas viva.


Agarrado aos carvalhos, passou os limites de si próprio e viu uma jovem que esfolheava um livro, abraçada pelo sol e que deixava sair aquela melodia de uma geringonça quadrada, encaixada ao seu lado.


Caminhou, foragido de si próprio e com a boca seca de saliva e a cabeça cheia de nervos, disse o que nunca pensou: “Salvo-me por ti”


Depois, mais ninguém me disse nada. 

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. As reticências, Rita, as reticências :P
    (assinado: o comentador anónimo)

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  3. Fixe já temos o blog
    falta agora um texto introdutório vou fazer um para ver se gostam.
    Falta tb criar os autores p cada texto ter o nome do autor
    Rita sugiro que configures o texto com mais espaço entre as linhas para não cansar a vista.
    Vai ser um blog do caraças
    beijos
    Palucha

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